Sou uma admiradora de cantoras que compõem. Ninguém desconhece que numa sociedade patriarcal tenha sido extremamente complicado para a mulher se estabelecer em tarefas que não fossem as do lar, ou em uma continuação delas. Assim, quando conseguiam ir além da esfera doméstica, desempenhavam papéis de professora ou de enfermeira, afinal, já faziam isso no lar, onde educavam seus filhos e cuidavam da famÃlia.
Uma vez eu dei um livro pra Rita sobre a biografia de Chiquinha Gonzaga. Todos sabemos como ela gosta de ler, está sempre com um livrinho por perto… E, alguns meses depois, ela comentou comigo que gostara muito de ter conhecido a trajetória da Chiquinha, de quem naturalmente já sabia bastante informação, mas não com aquela riqueza de detalhes. A referência do livro, para quem se interessar é Chiquinha Gonzaga, uma história de vida, de Edinha Diniz, lançado pela Rosa dos Tempos.

Chiquinha foi uma pioneira que fez do ato de aprender piano, inerente à toda boa educação de moça prendada, aliado a saber falar francês, uma rebeldia. No piano descobriu que gostava de cantar e tinha talento para compor. Casou-se cedo e cedo se separou. Foi negada pela famÃlia e por filhos, rotulada como prostituta… isso no século XIX, para quem não sabe, ela nasceu no Rio de Janeiro, no dia 17 de outubro de 1847. Ao mesmo tempo em que se tornava avó, casava-se com um rapaz quase quarenta anos mais novo que ela. É ela a nossa primeira grande compositora que adquiriu respeito por sua obra e por sua luta pelos direitos autorais no Brasil.
O tÃtulo desse post foi inspirado, lógico, numa canção de Rita bastante conhecida (Todas as mulheres do mundo, do álbum Rita Lee, 1993) e que, por sinal, deu tÃtulo à biografia de Leila Diniz, recentemente relançada pela Record: Toda mulher é meio Leila Diniz, de Mirian Goldenberg.

Mas a troca dos nomes de Leila pelo de Chiquinha, foi feito sob inspiração da leitura que acabei de fazer de uma oportuna crônica de Artur Xexéo publicada na Revista de domingo de O Globo. Nela, com o tÃtulo de Meu mundo caiu, o jornalista mostra a sintonia entre sua mãe e Maysa, afirmando: “Rita Lee já disse que toda mulher é meio Leila Diniz. Talvez se referisse à s mulheres pós-anos 60. Antes disso, toda mulher queria ser meio Maysa (…) Maysa se rebelou por muitas delas. Esqueceu-se dos ensinamentos das freiras, largou um casamento de contos de fada e seguiu o que mandava o seu coração. (…) Mais impactante ainda: era talentosa, foi bem-sucedida”
Muito apropriadas as palavras de Xexéo. Tenho ouvido e lido muita besteira sobre a Maysa da minissérie da Globo. Parece que o filho, Monjardim, com todo o respeito, deu uma de Bentinho da famosa obra de Machado de Assis (Dom Casmurro), mas assumindo o velho complexo de Édipo. Ali, na telinha global, no último capÃtulo em que filho e mãe se reconciliam, mesmo com ele mandando um beijinho para quem anteriormente tinha levado um esporro filial daqueles, e de ter jogado ao ar a frase que parece resolver tudo: Eu te amo, ficou evidente a mensagem dos idealizadores de Maysa, quando fala o coração, e isto  nunca esteve escrito em nenhuma biografia dela: a de retratar uma mulher bem sucedida, porém frustrada porque nunca fora amada por ninguém como por seu primeiro marido. Uma alcoólatra  que deu com os burros na água ao querer ser livre e ganhar seu próprio dinheiro longe da mansão dos Matarazzo, na que viveria numa redoma de cristal, se tivesse ficado quietinha.
Toda mulher é meio Chiquinha, Maysa, Leila. Mas a gente ainda paga um pato daqueles se quiser vestir essa carapuça… Gostaria que as pessoas da minha geração parassem de falar mal de uma cantora/compositora maravilhosa como Maysa, a partir do que viram na telinha. Informem-se, leiam… Nós, gerações posteriores, temos a obrigação de sermos melhores do que as anteriores e de ir muito além, fazendo valer a luta das pioneiras. Mais um trechinho da crônica xexeniana:
“Quantas mulheres você imagina que, nos anos 50, eram compositoras? Quantas mulheres, em torno de 20 anos de idade, eram capazes de escrever versos como os de Ouça e os de Meu mundo caiu? Quantas mulheres eram independentes financeiramente naquela época? Tudo o que era só fantasia para as mulheres do seu tempo, Maysa realizava de verdade. (…) Pergunte para qualquer mulher que tenha a idade que minha mãe teria hoje o que ela acha de Maysa. Você vai ouvir só elogios. Maysa não era uma tresloucada precursora de Amy Winehouse como muita gente que acompanhou a minissérie está pensando. Ela era uma artista sensÃvel e talentosa que brigava pra se impor num mundo em que os homens ditavam as regras.”
Ah, eu perguntei à minha mãe, que tem 74 anos, o que achava de Maysa. Ela falou todos esses elogios aàe muitos outros mais. E eu me lembro do dia em que Maysa morreu, em 1977. Eu tinha 13 anos e estava na casa de uma colega de Faculdade da minha irmã, que é mais velha seis anos do que eu. O nome da moça era… Maysa. Lembro que a famÃlia ficou arrasada. A homenagem à cantora no nome da filha é evidente. Sim, eu lembro o dia em que Maysa morreu - como a gente lembra sempre o que estava fazendo em datas impactantes - mas prefiro lembrar do dia em que ela nasceu e dos que renasceu, apesar de tudo e de alguns.

É bom que saibamos que Maysa não era santa, mas um ser humano com qualidades e defeitos. Assim, quem quiser saber a opinião de uma das suas paixões, sobre ela, é só ler as memórias de Ronaldo Bôscoli, organizadas por Luiz Carlos Maciel e Ângela Chaves, na obra Eles e eu, publicada pela Nova Fronteira.
Toda mulher é meio Rita Lee.

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